À 1h17, restava apenas um copo sobre a mesa.
Os outros estavam na pia, empilhados desordenadamente. Dois pratos ainda apresentavam vestígios de uma sobremesa que ninguém havia terminado. Na sala de estar, as almofadas haviam se movido, uma playlist continuava tocando muito baixo e o cheiro do jantar se misturava com o de velas quase apagadas.
Clara fechou a porta atrás dos últimos convidados.
Ela permaneceu imóvel na entrada por alguns segundos.
O silêncio retornou repentinamente.
Não era exatamente silêncio: a máquina de lavar louça estava funcionando, a cidade murmurava lá fora e Julien guardava algo na cozinha.
Mas, depois de quatro horas de conversa, risos e frases iniciadas por várias pessoas ao mesmo tempo, essa calma parecia quase física.
"Sobrevivemos", disse ele da cozinha.
Clara tirou os sapatos.
"Por pouco."
Ela os deixou ali, contra a parede, sem alinhá-los.
Julien espiou pela porta.
—Você está desistindo?
—Vou delegar isso para a Clara de amanhã.
— Péssima colega.
— Muito ruim.
Ela foi para a cozinha.
A luz principal estava apagada. Julien havia deixado apenas o pequeno abajur pendurado sobre a bancada.
O cômodo parecia menor assim.
Mais silencioso também.
O que sobra depois dos outros.
Eles viveram juntos por três anos.
Eles já tinham recebido esses amigos mais de uma dúzia de vezes, talvez mais. Eles conheciam a rotina: alguém chegava com uma garrafa desnecessariamente cara, outro contava uma história longa demais, Julien ficava de olho no forno, Clara fingia que não precisava de nada, mas sempre esquecia os guardanapos.
Então os convidados iam embora.
Geralmente, eles arrumavam tudo rapidinho antes de ir para a cama.
Naquela noite, nenhum dos dois parecia estar com pressa.
Clara sentou-se na beirada do balcão.
Julien abriu a geladeira, examinou o conteúdo como se procurasse uma resposta e a fechou novamente.
"O que você está fazendo?", ela perguntou.
"Não sei."
"Isso é preocupante." Ele se virou para ela.
Ele se virou para ela.
— Hesitei em agir como um adulto e arrumar a bagunça.
— Grande erro.
Ele sorriu.
Clara pegou o último copo que restava no balcão. Ainda havia dois goles de vinho dentro.
Ela tomou um gole e entregou o copo a Julien.
Ele o pegou sem tirar os olhos dela.
Um gesto simples.
Mas a noite tinha desacelerado o suficiente para que esse detalhe banal se tornasse perceptível.
Os dedos dele tocaram os dela por um segundo a mais do que o necessário.
Clara percebeu.
Ele também.
Nenhum dos dois comentou.
O detalhe que não havia sido previsto.
Julien pousou o copo.
Clara colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ela havia tirado os brincos no meio do jantar porque estavam incomodando; um deles ainda estava na prateleira perto dos temperos.
"Você sabe que tem um na cozinha?", disse Julien.
— O quê?
Ele apontou para a prateleira.
— Ah.
— Um lugar muito lógico.
— Eu sabia que ia encontrar.
— Você nem sabia que estava aí.
Clara estendeu a mão para pegá-lo.
Julien fez o mesmo gesto ao mesmo tempo.
Suas mãos se cruzaram.
Ela retirou a sua, rindo.
— Pode pegar.
Ele pegou o brinco entre dois dedos e se aproximou.
— Posso?
Clara entendeu imediatamente.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Sim.
Ele afastou cuidadosamente o cabelo dela.
O gesto durou apenas alguns segundos.
O metal frio roçou sua orelha. Os dedos de Julien tocaram a nuca dela quase por acidente — ou pelo menos levemente o suficiente para ainda parecer um acidente.
Clara sentiu um arrepio percorrer seus ombros.
Julien ajeitou o fecho atrás da orelha dela.
Então a mão dele permaneceu ali.
Não por muito tempo.
Apenas o suficiente para pedir algo sem dizer.
Clara virou o rosto para ele.
Eles estavam perto.
A cozinha ainda cheirava a alecrim, vinho tinto e cera quente.
— Você colocou torto de volta, ela murmurou.
— É possível.
— Muito profissional.
— Sou melhor em outras coisas.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Essa foi uma frase perigosamente fácil.
Ele riu e deu um passo para trás.
A tensão poderia ter desaparecido com a risada.
Ela permaneceu.
Gestos domésticos às vezes se transformam em outra coisa.
Julien finalmente começou a guardar os copos limpos que estavam secando perto da pia.
Clara permaneceu sentada no balcão.
Ela o observava.
— O quê? ele perguntou sem se virar.
— Nada.
— Você está me olhando.
— Talvez.
— Isso é suspeito.
Ele guardou o último copo e fechou o armário.
Então ele se virou para ela.
— O que você está olhando?
Clara parou um momento para pensar.
— Acho que estou observando você estar em nossa casa.
Julien franziu levemente as sobrancelhas.
— Conceito estranho.
— Eu sei.
Ela colocou as mãos atrás de si sobre a bancada de madeira.
— A noite toda, você foi a anfitriã. Você serviu, respondeu perguntas, ficou de olho no forno, fez todos rirem. E agora…
— Agora?
— Agora você é apenas você.
Ele permaneceu em silêncio.
Clara sorriu levemente.
— Combina com você.
Desta vez, Julien não respondeu imediatamente.
Ele se aproximou.
Não o suficiente para tocá-la.
Mas o suficiente para Clara erguer levemente o queixo.
— Você também, disse ele.
— Eu também o quê?
— Você acabou de voltar a ser você mesma.
Uma dança sem música.
A playlist da sala de estar parou.
A próxima música não começou.
Eles só ouviram o zumbido da lava-louças.
Julien colocou a mão na bancada, perto do quadril de Clara.
— Você está cansada? ele perguntou.
— Um pouco.
— Você quer dormir?
Ela olhou para a mão dele, depois para o rosto.
— Ainda não.
Ele assentiu.
Clara colocou delicadamente a mão no pulso dele.
O contato foi leve.
Julien deixou.
Ela deslizou os dedos até a palma da mão dele.
Então, ela desceu do balcão.
Eles se viram frente a frente em uma cozinha que, dez minutos antes, parecia apenas o tipo de lugar que precisaria ser limpo amanhã.
Julien colocou a mão na cintura dela.
Clara se aproximou.
"Nem temos mais música", disse ele.
"Isso é melhor."
"Por quê?"
"Porque você não pode fingir que sabe dançar." — Eu nunca finjo.
— Eu nunca finjo.
— Esse é exatamente o problema.
Ele a virou desajeitadamente.
Clara abafou uma risada contra o ombro dele.
Não havia música.
Nenhum ritmo.
Apenas duas pessoas se movendo lentamente pelo prazer de serem forçadas a se ajustar uma à outra.
Julien encostou a testa na dela.
Eles pararam de se mover.
A pergunta
Clara sentiu a respiração dele perto de sua bochecha.
Ele não tentou beijá-la imediatamente.
Ela adorou aquele segundo.
Aquele em que nada estava decidido ainda.
Julien recuou o suficiente para ver o rosto dela.
—Posso te beijar?
Clara poderia ter rido da solenidade da pergunta depois de três anos juntos.
Ela não riu.
— Sim.
O beijo foi lento.
Nada espetacular.
Ele não tinha nada a provar.
Clara colocou a mão na nuca de Julien e o puxou um pouco para mais perto.
Ele acompanhou o movimento dela.
Então, ele parou por conta própria.
Ela abriu os olhos.
— Por que você parou?
— Porque quero saber se você deseja continuar.
Clara olhou para ele por alguns segundos.
— Sim.
Então, após uma pausa:
— Mas não como se tivéssemos algum lugar para ir.
Julien entendeu.
Ele a beijou novamente.
A pequena lâmpada acima deles lançava uma luz quente sobre os azulejos.
Lá fora, um carro passou.
Lá dentro, não havia pressa.
O luxo do tempo perdido.
Eles ficaram na cozinha por um longo tempo.
Tempo suficiente para a máquina de lavar louça terminar o ciclo.
Tempo suficiente para Clara perceber que havia se esquecido completamente da louça restante.
Eles conversaram em fragmentos.
Uma frase.
Um beijo.
Um silêncio.
Uma piada que quebrou a tensão o suficiente para que ela pudesse retornar de outra forma.
Julien às vezes fazia uma pergunta simples.
"Você está bem?"
"Assim?"
"Você prefere que eu fique aqui?"
Clara respondeu.
Às vezes com palavras.
Às vezes aproximando a mão dela da dele.
A atenção havia substituído o roteiro.
E foi justamente isso que tornou a noite diferente.
Não se tratava de alcançar nada.
Apenas de perceber o que estava acontecendo.
O que eles haviam esquecido.
Mais tarde, Clara voltou para a sala de estar.
Julien a seguiu.
O quarto ainda estava uma bagunça.
Copos vazios, almofadas fora do lugar, restos de jantar, velas quase apagadas.
Clara parou no meio do quarto.
"Vamos odiar isso amanhã de manhã."
"Muito."
— Você ainda quer deixar tudo?
Julien observou a bagunça.
Então ele olhou para ela.
— Absolutamente.
Ela sorriu.
Ele apagou a última lâmpada da sala.
Só restava a lâmpada da cozinha, atrás deles.
Uma luz fraca e quente delineava suas silhuetas na porta.
Clara pegou a mão dele.
Desta vez, ela não disse nada.
Eles saíram da sala de estar sem arrumar mais nada.
O dia seguinte podia esperar.